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Cidade do México – Em todo o México, as crianças começam agora um novo ano letivo, mas muitas acabam em prédios caídos, sem água potável, apostilas novas ou professores treinados. Dinheiro não é problema, pois o país investe mais em educação, proporcionalmente ao PIB, que Brasil, Espanha e Suíça. Então, para onde ele vai? De acordo com os cálculos que aparecem no "abusômetro" – um painel gigantesco em um cruzamento bem movimentado da cidade – cerca de US$2,8 bilhões todos os anos vão para o bolso de 298.174 professores, diretores e funcionários que ganham sem trabalhar. "É o roubo do século, e acontece todos os anos. A corrupção é absurda", desabafa Claudio X. González Guajardo, da Mexicanos Primero, organização educacional responsável pela denúncia.

Crítico erudito com ar professoral, ele condena o desvio que ocorre na educação há muito tempo, e está munido de provas: dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico que apontam para o desempenho educacional fraco do México, com 93,3 por cento do orçamento gasto com funcionários, mais que qualquer outro país membro da instituição. Nem as necessidades básicas da escola são preenchidas.

Segundo o censo mais recente feito pelo governo, quase um terço das escolas públicas mexicanas não tem água potável. Onze por cento não tem energia elétrica e em algumas áreas indígenas de Chiapas e Oaxaca os problemas de infraestrutura são muito piores. O abusômetro é uma crítica direta e pouco ousada: com suas luzes feéricas exibindo o volume de dinheiro perdido em desperdício e corrupção desde o primeiro dia de aula, ou seja, 17 de agosto, o placar é um incômodo contínuo, de caráter populista, que usa a vergonha para gerar indignação.

Com um site e a hashtag #abusometro no Twitter, a campanha é um sinal inegável de que a sociedade civil mexicana está ficando mais sofisticada. E também enfatiza a divisão entre uma classe média crescente e cada vez mais digitalizada – que espera transparência, decisões baseadas em dados e resultados rápidos – e a velha guarda dos funcionários públicos, que ainda depende imensamente do sigilo e da burocracia. "Os cidadãos aprenderam que a democracia oferece muitas maneiras de expressar a opinião, mesmo que sejam chocantes e assertivas. Isso, mais o código de honra latino, significa que envergonhar um político corrupto através de invenções como o abusômetro é uma combinação perfeita do novo – a consciência democrática – e o tradicional – um código de honra, com os quais o inimigo pode ser humilhado publicamente", explica Rubén Gallo, professor de Cultura Latino-Americana na Universidade de Princeton.

O governo mexicano ainda não se manifestou, mas Claudio sabe que está prestando atenção. Aliás, os números que ele usou na verdade são do censo feito pelas próprias autoridades antecipando uma lei da reforma educacional à qual muitos professores são contra – e demonstraram seu descontentamento acampando na praça principal da capital durante semanas. E agora essas mesmas evidências que o governo reuniu para forçar a aprovação da legislação – que supostamente incluiria avaliação e treinamento dos futuros educadores – estão sendo usadas para exigir uma "limpa" no quadro docente. Sem dúvida, é o que muitos pais querem. Recentemente, depois de passar pelo outdoor com o filho de cinco anos que trazia da escola, Adriana Reyes, de 35 anos, disse que está otimista com as mudanças em longo prazo, mas que o governo tem que ser ágil para melhorar o ensino. "Ficam se gabando do dinheiro gasto na educação, mas a qualidade nunca melhora", lamenta ela. Olhando mais uma vez para o medidor, que mostrava 440.186.899 pesos (mais de US$33 milhões) desperdiçados antes do fim da primeira semana de aula, acrescentou: "Há mudanças, mas elas são muito lentas".

Luis Urrieta Jr., professor de Educação e Estudos Latino-Americanos da Universidade do Texas, diz que as autoridades mexicanas podem estar agindo com cuidado e discretamente porque o nível de transparência oferecido pelo censo é muito maior do que aquele a que o México está acostumado. Para ele, a burocracia educacional, mais que os professores, é culpada pela corrupção; ao mesmo tempo, porém, depende-se dela para promover mudanças mais amplas, o que exige um equilíbrio delicado. Alguns especialistas temem que uma atitude muito dura e rápida possa botar o projeto a perder. Depois de décadas de nepotismo e trocas de favores, com cargos passando de um para o outro nas famílias – e gente recebendo o salário de parentes há muito tempo mortos – promover cortes, principalmente nas áreas rurais, mais pobres, poderia levar a uma nova onda de protestos que ameaçaria parar todo o sistema de vez. "Uma vez que você começa a expor as facetas problemáticas, a instituição vai ficando cada vez mais vulnerável. É bem provável que estejam sendo apenas cautelosos com o que pode ser revelado e também querem ganhar tempo para encontrar uma forma de lidar com o caso", conclui Luis.

Claudio, por sua vez, como muitos mexicanos, continua insatisfeito. Ele explica que viu o painel da dívida interna norte-americana em Nova York, há muitos anos, e que seu abusômetro foi inspirado pela frustração e impaciência com um sistema que parece sempre deixar para amanhã o que deveria ter sido feito ontem. Afirma também que o dinheiro gasto com professores e funcionários que não fazem nada poderia ser usado para aumentar o salário dos bons profissionais, construir 24 escolas novas por dia ou equipar praticamente todas as escolas de ensino médio com computadores modernos. "Eles sabem – sabem que têm um problema imenso. Só precisam de vontade política para mudar as coisas", conclui.

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