Get Adobe Flash player
Anticor - Anticorrupção na França
Galeria Edemar Cid Ferreira
Home Olimpíadas 2016 Em 2001, quando ganhou o direito de realizar os jogos, País planejava gastar R$ 390 mi, mas a conta final ficou em R$ 3,58 bilhões!

postheadericon Em 2001, quando ganhou o direito de realizar os jogos, País planejava gastar R$ 390 mi, mas a conta final ficou em R$ 3,58 bilhões!

AddThis Social Bookmark Button

Quando os Jogos Pan-Americanos de 2007 se encerraram, em 29 de julho de 2007, no estádio do Maracanã, o Brasil festejava seu melhor desempenho na competição: o terceiro lugar, atrás apenas de Estados Unidos e Cuba e à frente do Canadá. 

Pouco mais de um ano depois, o relatório final do Tribunal de Contas da União (TCU) apresentava a fatura da festa. Se, em relação ao desempenho esportivo, o Brasil quase dobrara o número de medalhas – 54 diante das 29 conquistadas em 2003 –, as despesas com o Pan do Rio de Janeiro haviam se multiplicado nada menos de nove vezes em relação ao previsto. Em 2001, quando ganhou o direito de realizar os jogos, o País planejava gastar R$ 390 milhões.

Mas a conta final bateu em espantosos R$ 3,58 bilhões! Para que surpresas desse tipo não venham a ocorrer em relação à Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016, governantes, legisladores e fiscalizadores são unânimes em defender a transparência total das contas, desde o início.



Em Bruxelas, para onde viajara após participar da apresentação da vitoriosa candidatura do Brasil na reunião do Comitê Olímpico Internacional em Copenhague, o presidente Lula até se irritou ao ser questionado sobre como fiscalizar a gastança. "Eu acho que ficar com esse argumento agora seria colocar o Brasil no papel pequeno que alguns querem colocar todo santo dia. O povo brasileiro saberá fiscalizar o uso do dinheiro."

Fiscalizar é, obviamente, essencial. Mas nunca é demais aprender com o passado para não deixar que se repitam situações como a dos Jogos Pan-Americanos. De acordo com o relatório de 143 páginas do TCU, de 24 de setembro de 2008, assinado pelo ministro Marcos Vinicios Vilaça, foram abertos 35 processos para apurar irregularidades. Passado mais de um ano, nenhum foi concluído. E dois deles já chegaram à fase de apontar responsabilidades e cobrar dos envolvidos a devolução de R$ 18,4 milhões aos cofres públicos. Em ambos, é acusado Ricardo Leyser, assessor do Ministério dos Esportes e atual membro do Comitê Organizador dos Jogos Rio-2016. Leyser negou envolvimento e já está recorrendo da decisão do TCU. Ele já foi defendido pelo ministro dos Esportes, Orlando Silva, e pelo prefeito do Rio, Eduardo Paes.
No primeiro dos contratos, em que se pede a devolução de R$ 2 milhões, teria havido superfaturamento em serviços de hotelaria e montagem de infraestrutura na Vila Pan-Americana. O governo teria pago o equivalente a 12 horas de trabalho de eletricista e seis horas de vidraceiro para instalar cada aparelho de ar-condicionado da vila. Instalar cada persiana dos quartos teria exigido o aluguel de dez dias úteis de parafusadeira e furadeira.
No segundo processo, a devolução pedida é de mais de R$ 16 milhões, referentes a irregularidades na contratação de estruturas provisórias para o Pan. Entre elas irregularidades estaria a compra de tendas com estrutura tubular de alumínio. Um lote de tendas abertas, de 50 metros por 15 metros, foi pago à razão de R$ 117.600 por unidade, sendo que tendas maiores, de 80 metros  por 20 metros, fechadas, saíram por apenas R$ 24.045 cada uma.
Os demais processos apresentam irregularidades de todas as formas, que vão do superfaturamento de materiais e serviços contratados a pagamentos feitos em dobro ou contratos modificados sem a apresentação de justificativas.
Os custos de hospedagem dos atletas nos apartamentos da Vila Pan-Americana seria um dos exemplos de desperdício. De acordo com os cálculos do TCU, cada atleta custou R$ 1.137 por dia – contados o aluguel dos apartamentos, a hotelaria e as despesas de alimentação. Como comparação, o relatório cita o fato de as despesas de hospedagem dos membros dos comitês olímpicos em bons hotéis, com pensão completa, ter saído por R$ 600 a diária, em média. Ou seja, se todos os competidores tivessem sido acomodados em hotéis, os custos seriam reduzidos à metade.
Para quem possa interpretar tudo como deslavada roubalheira, o relatório do ministro Vilaça divide as causas dos gastos exagerados com a "incapacidade dos agentes envolvidos de prever, antecipadamente e de forma realista, os dispêndios necessários à realização do empreendimento". O que pode ser resumido à simples falta de planejamento e organização. Mas a análise do TCU não se prendeu apenas aos custos do Pan. Estendeu-se também em relação ao chamado "legado" dos jogos, apontando como exemplo a subutilização ou a ociosidade completa de sofisticadas instalações esportivas construídas especialmente para o Pan e que acabaram depois ficando quase às moscas – como o Complexo Aquático Maria Lenk e a moderníssima pista de atletismo do Estádio João Havelange, o Engenhão, hoje alugado ao Botafogo e usado apenas para receber jogos de futebol.
No relatório, elaborado um ano antes de o Rio de Janeiro ser confirmado como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, o hoje aposentado ministro Vilaça defendia que a experiência do Pan deveria servir de exemplo do que evitar no futuro. "A imagem da série de problemas sofridos deve permanecer como lição para futuros eventos de igual natureza, como a Copa do Mundo de 2014 ou, quem sabe, a Olimpíada de 2016". É o mínimo a esperar, projetando-se que um estouro de orçamento proporcional ao do Pan 2007 levaria a Olimpíada 2016 a custar R$ 225 bilhões, em vez dos R$ 25 bilhões projetados agora.